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Política

Moraes usa inquérito das fake news para acusar Mendonça

Rafael Ramos
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DeRafael Ramos
Rafael Ramos é jornalista profissional registrado (DRT 0003116/SE — SINAJ, Sindicato Nacional dos Jornalistas) e gestor de comunicação, com atuação em múltiplos portais de notícias em...
Publicado 03/09/2026
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5 Min Leitura
Alexandre de Moraes e André Mendonça, do STF
Alexandre de Moraes e André Mendonça, do STF — Foto: Reprodução
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Inquérito aberto em 2019 para apurar ataques a integrantes do Supremo passou a abrigar acusações contra um ministro da própria Corte

O Inquérito 4.781, aberto em 2019 para apurar notícias fraudulentas e ameaças contra integrantes do Supremo Tribunal Federal, passou a abrigar acusações de um ministro da Corte contra outro.

Os três ministros envolvidos no episódio
Os três ministros envolvidos no episódio — Foto: Reprodução

O que diz a decisão

De acordo com o texto, relatórios de inteligência da Polícia Federal reúnem elementos que apontariam “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na atuação de André Mendonça como relator de dois processos: a Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos de aposentadorias do INSS, e a Operação Compliance Zero, ligada ao Banco Master.

As supostas irregularidades foram organizadas em três grupos:

  • Interferência na condução das investigações — Mendonça teria avançado sobre atribuições da Polícia Federal, atuando, segundo a decisão, como se fosse o “presidente do inquérito”.
  • Participação em tratativas de colaboração premiada — negociações que, pela regra, cabem ao Ministério Público, e que teriam sido conduzidas sem a Procuradoria-Geral da República.
  • Direcionamento de alvos — entre os citados estão o próprio Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo o texto, o direcionamento teria ocorrido “por razões pessoais e políticas”.

Moraes determinou que o conjunto de documentos fosse enviado a Fachin “para as providências que entender necessárias” e que a Procuradoria-Geral da República fosse comunicada.

O inquérito usado como base

A decisão foi tomada no âmbito do Inquérito 4.781, instaurado em 2019 para investigar notícias fraudulentas, denunciações caluniosas, ameaças e outras infrações contra integrantes do Supremo, além de eventuais esquemas de financiamento e disparo em massa de conteúdo falso nas redes sociais. É o chamado inquérito das fake news, relatado pelo próprio Moraes.

O que Fachin determinou — e o que ele não decidiu

O presidente do Supremo, Edson Fachin, determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos por escrito no prazo de cinco dias úteis.

O despacho, porém, trata de “eventuais vícios de forma” apontados pela Procuradoria-Geral da República no caso do Banco Master, e determina a coleta de informações antes de uma eventual análise pelo Plenário. Fachin não chegou a apreciar o despacho de Moraes contra Mendonça — os dois movimentos correm em paralelo.

Como se chegou até aqui

O episódio é o terceiro capítulo de uma sequência iniciada há poucos dias. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a Alexandre de Moraes, reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo. Entre elas estava a pergunta escrita por Vorcaro em 15 de novembro de 2025 — “Acha que segunda já tenho que estar fora?” —, dois dias antes de ele ser preso pela PF.

Moraes nega ser o destinatário daquelas mensagens. Agora, é ele quem aciona a presidência da Corte contra o colega que tornou o material público.

Procurado, o ministro André Mendonça não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

O relatório de 50 páginas

O documento em que Moraes se apoia é um relatório de inteligência da Polícia Federal de 50 páginas, intitulado “Relatório de Inteligência — Tópico de Análise de Cenário: Possível avanço sobre competência do plenário e sobre prerrogativa de membro do Ministério Público”.

Segundo o portal Claudio Dantas, o relatório passou a ser produzido a partir do momento em que Mendonça assumiu a relatoria do caso no lugar do ministro Dias Toffoli e determinou a troca de equipes e a blindagem da investigação contra vazamentos — medida que afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, de qualquer contato com o processo. Andrei Rodrigues é alvo de denúncia do próprio Daniel Vorcaro, que atribui a ele o engavetamento de suas propostas de colaboração premiada.

O que Moraes escreveu

No despacho, Moraes endossa manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e afirma que “o discurso do relator denota interesse no início de investigação formal quanto a ele, tendo solicitado mais de uma vez que a equipe de investigação encaminhasse alguma provocação a ele nesse sentido”.

Ele também compara o tratamento dado a diferentes ministros: “O relator adota posturas muito diferentes diante de ilicitudes aparentes relacionadas aos Ministros Dias Toffoli e Nunes Marques, em comparação com sua percepção no que toca ao Ministro Alexandre de Moraes, apresentando discurso de defesa quanto aos dois primeiros”.

O que a PF aponta no documento

O relatório — que, segundo o portal Claudio Dantas, não está assinado — sustenta que Mendonça teria exercido “poderes típicos de presidência da investigação, e não de supervisão judicial”, com “subordinação de atos de gestão administrativa da PF ao controle judicial, acesso direto ao acervo probatório bruto e supressão técnica do delegado sobre o produto analítico da unidade”.

Um dos capítulos trata do que a corporação chama de “assimetria nos prazos de apreciação” de representações contra investigados, “a depender da vinculação político-partidária”. O documento exibe um quadro comparativo:

Medida / investigadoRepresentaçãoDecisãoDias
MBA — Jaques Wagner08/06/202617/06/20269
MBA — Ciro Nogueira07/04/202606/05/202629
MBA — Cláudio Castro (1)11/03/202625/05/202675
MBA — Cláudio Castro (2)30/05/202615/07/202646
Cautelares — Inst. Previdência de Maceió09/06/2026pendente em 01/08/202653+
Quadro de prazos reproduzido no relatório de inteligência da Polícia Federal

O documento também afirma que o ministro teria mantido contato com defensores de pretensos colaboradores. Segundo o texto, ele próprio mencionou em sessão pública da Segunda Turma que soube do afastamento do delegado Guilherme Silva do comando da Operação Sem Desconto durante audiência com o advogado Celso Vilardi.

Em um capítulo de “riscos consolidados”, a PF lista como de alta probabilidade a nulidade de acordos de colaboração por participação do juízo nas tratativas — hipótese com vedação expressa no artigo 4º, parágrafo 6º, da Lei nº 12.850/2013 —, além da revogação em bloco de custódias por excesso de prazo e da invalidação de provas derivadas.

Do outro lado, 52 mensagens

No pedido que fez a Fachin para que Moraes seja investigado, André Mendonça relacionou 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Mendonça pediu ainda o afastamento cautelar do colega.

Nenhum dos dois ministros se manifestou publicamente sobre as acusações do outro até a publicação desta atualização.

Quem falou com a Polícia Federal

Um ponto do documento chama atenção: segundo o portal Claudio Dantas, o relatório foi montado a partir de relatos de servidores que integram a própria equipe do ministro no Supremo — ou seja, pessoas que trabalham diretamente com Mendonça nas investigações.

É desses relatos que saem as passagens sobre o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O texto afirma que, “em reuniões, o relator afirmou reiteradamente entender que o diretor-geral mantém proximidade inadequada com o presidente da República e que, por essa razão, não seria possível confiar nele”, e acrescenta: “até o momento não apontou fato concreto que denote atuação irregular”. Ainda segundo o documento, na última reunião presencial o ministro disse dispor de procedimento em que se avalia “eventual determinação de afastamento do diretor-geral”.

Avaliação semelhante teria sido feita sobre o procurador-geral da República. O relatório registra que Mendonça citou a “proximidade com o ministro Gilmar Mendes”, o que tornaria Paulo Gonet “indigno de confiança, com manifestação de que provavelmente o arrolará, ao menos como testemunha, em processos derivados das operações”.

A ressalva que o próprio documento faz

O relatório inclui um item de “Avaliação” em que aponta “ausência do padrão que o próprio juízo exige”: “a imputação apoia-se em proximidade institucional presumida, sem indicação de ato (…) Dirige-se juízo de desconfiança a duas autoridades sem qualquer elemento concreto”.

Entre as conclusões críticas atribuídas à atuação do ministro, o texto lista “direcionamento a resultado predeterminado, concepção ampla do poder instrutório, desconfiança quanto a intermediários institucionais e cautela ampliada em feitos de alta exposição”.

Vale o registro: trata-se de relatório de inteligência, peça de análise interna, e não de laudo pericial ou denúncia formal. O documento não está assinado, e as conclusões nele contidas não foram submetidas ao contraditório.

Nota da Redação

Esta reportagem tem caráter estritamente informativo e não expressa opinião deste veículo. As informações atribuídas a fontes e as declarações de terceiros são reproduzidas na forma como foram apresentadas à reportagem e não constituem afirmação da redação sobre os fatos.

Investigações, apurações e procedimentos citados não representam condenação. Em relação a todas as pessoas mencionadas vigora a presunção de inocência assegurada pelo art. 5º, LVII, da Constituição Federal, até que haja decisão judicial definitiva.

Direito de resposta. Toda pessoa física ou jurídica citada nesta matéria tem espaço assegurado para manifestação, retificação ou complementação, que será publicada com o mesmo destaque, nos termos da Lei nº 13.188/2015. Pedidos podem ser enviados para contato@giroporsergipe.com.br.

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DeRafael Ramos
Rafael Ramos é jornalista profissional registrado (DRT 0003116/SE — SINAJ, Sindicato Nacional dos Jornalistas) e gestor de comunicação, com atuação em múltiplos portais de notícias em Sergipe. Apaixonado por política nacional e internacional, esportes e cultura, assina coberturas que unem rigor informativo e linguagem acessível ao leitor contemporâneo — sempre com apuração própria, indo atrás da fonte e do assunto. À frente do R2 Media Group, dedica-se a levar informação de qualidade para o público sergipano e brasileiro.
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