O embate entre a Prefeitura de Barra dos Coqueiros e as catadoras de mangaba expõe um dilema que vai além da disputa por um terreno, colocando em risco a preservação de uma das mais importantes riquezas culturais e ambientais de Sergipe.
Os conflitos, muitas vezes, não se originam apenas na derrubada de cercas. Eles têm início muito antes, quando comunidades tradicionais são silenciadas, quando a burocracia se sobrepõe ao diálogo e quando o desenvolvimento começa a enxergar a terra apenas como um patrimônio material, esquecendo-se de que ali também habitam histórias, memórias e identidades.
O caso das catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros ilustra bem essa realidade. De um lado, a Associação das Catadoras denuncia que a Prefeitura derrubou as cercas da área destinada ao projeto sem aviso prévio, surpreendendo mulheres que lutam há anos para transformar aquele espaço em um centro de preservação das mangabeiras e do extrativismo. Do outro, a administração municipal defende que apenas exerceu a legislação, afirmando que o terreno ficou sem uso durante aproximadamente nove anos, levando à reversão da área ao patrimônio público.
Ambas as partes apresentam argumentos válidos, e cabe aos órgãos competentes analisar a legalidade dos atos. Entretanto, uma questão merece atenção: por que uma situação como essa precisou chegar ao ponto de ser resolvida com máquinas e decretos, quando poderia ter sido discutida de forma pacífica?
As representantes da associação afirmam que o terreno foi conquistado após um longo trabalho envolvendo instituições públicas, pesquisadores e parceiros, visando plantar centenas de mudas de mangabeira e preservar uma espécie emblemática dos tabuleiros costeiros, além de garantir que dezenas de famílias continuassem a viver da coleta da fruta. Elas relataram que estavam organizando a documentação necessária para acessar recursos e estruturar o projeto quando descobriram que as cercas haviam sido retiradas e que um decreto municipal revogou a doação.
A história das catadoras é rica e complexa, marcada por um conhecimento que foi sendo construído ao longo de gerações. Essas mulheres aprenderam desde a infância a reconhecer o tempo da floração, o momento certo da colheita e o cuidado necessário para preservar as árvores, respeitando o ciclo da natureza. Esse aprendizado não veio de livros, mas da vivência nas comunidades, ao lado de mães, avós e vizinhas, transformando saberes populares em ciência da convivência com o meio ambiente.
Durante décadas, elas foram responsáveis pela conservação de áreas naturais que hoje atraem a atenção da urbanização e da especulação imobiliária. Enquanto muitos viam apenas terrenos vagos, elas enxergavam alimento, renda e futuro.
Infelizmente, essa trajetória é também marcada por perdas. Gradualmente, áreas livres foram sendo cercadas para dar lugar a condomínios, loteamentos e empreendimentos turísticos, reduzindo o acesso às mangabeiras nativas. Muitas famílias passaram a percorrer distâncias maiores para encontrar árvores que antes eram facilmente acessíveis. O território diminuiu, mas a resistência das catadoras permanece firme.
Portanto, quando uma cerca é derrubada, o que essas mulheres sentem vai além do valor material. Para elas, isso representa a interrupção de um sonho construído com muito esforço, um projeto que visa garantir que futuras gerações também possam encontrar nas mangabeiras uma fonte de dignidade.
É necessário que o patrimônio público atenda à sua função social, e que as doações respeitem a legislação. Porém, também é verdade que comunidades tradicionais enfrentam desafios que muitas vezes não se encaixam nos prazos rígidos da burocracia. A falta de recursos, a dificuldade de regularização e a busca por apoio tornam esses processos mais lentos do que se imagina.
O maior erro desse episódio pode não ser uma questão de quem está certo ou errado, mas a ausência de diálogo. Quando máquinas chegam antes das pessoas e decretos prevalecem sobre as vozes que vivem da terra, a esperança de uma comunidade pode ser interrompida.
As cercas não serviam apenas para delimitar um terreno, mas para proteger um sonho. Elas guardavam o desejo de mulheres que acreditavam estar plantando mais do que mangabeiras; estavam plantando dignidade e um futuro melhor para suas filhas e netas.
A mangabeira nos ensina que tudo tem seu tempo. Assim como a árvore precisa da chuva e do sol para crescer, os projetos que envolvem comunidades tradicionais também demandam cuidado, escuta e compreensão. Como disse Milton Nascimento em sua canção, “Há que se cuidar do broto”. Cuidar do broto é proteger a natureza antes que ela desapareça e valorizar quem preserva antes que suas vozes se calem.
Ainda há tempo para reconstruir pontes e promover um diálogo que respeite a história e os saberes das comunidades tradicionais, assegurando que seus direitos e sonhos sejam respeitados.
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