Apesar de 98% consumirem cultura pela tela, há pouco vínculo com produções locais. Em Sergipe (351,4 mil jovens), um terço nunca participou de eventos com artistas locais, diz Instituto JCPM.
No Brasil, 98% dos jovens entre 16 e 24 anos consomem cultura, mas essa relação muitas vezes ocorre pelas telas, sem conexão com o que é produzido na própria cidade. Um levantamento realizado em 2025 pelo Observatório Fundação Itaú revelou que 33,47% desse público nunca participou de um evento com artistas locais, seja presencialmente ou online. Em Sergipe, onde residem 351,4 mil jovens, esse distanciamento se tornou uma preocupação para o Instituto JCPM.
Durante a celebração do Dia Internacional da Juventude, a instituição, ligada aos shoppings Jardins e RioMar, promoveu uma série de atividades sob o tema “Identidade: entre raízes e futuro coletivo”. A programação, que também ocorreu na Bahia, Ceará e Pernambuco, teve seu encerramento em Sergipe nesta semana, com um encontro no Museu da Gente Sergipana, em Aracaju.
A proposta do evento foi criar um espaço de encontro, escuta, expressão e construção coletiva, buscando estimular os participantes a refletirem sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o futuro que desejam construir. O encontro reuniu 105 jovens e contou com um painel que teve como convidados o pesquisador e artista Severo D’Acelino e a historiadora e professora Carine Mangueira. Além disso, foram realizadas oficinas de crochê, confecção de acessórios, máscaras africanas, live painting, e apresentações de teatro e dança, incluindo o Mestre Saci com o Boi de Bila e o grupo coreográfico Adupé.
A iniciativa se baseia na ideia de que o futuro não surge do vazio, mas sim do diálogo profundo com a ancestralidade. Este conceito transforma a memória em uma ferramenta social e cultural, capaz de orientar decisões e fortalecer vínculos.
“Percebemos que muitos jovens não têm o hábito ou a oportunidade de visitar um museu ou participar de um evento cultural presencial. A ideia do Conexão Juventudes é justamente criar esse território de fortalecimento: articular arte, cultura, educação e cidadania para que cada um se reconheça na própria história”, afirmou a coordenadora de Gestão e Articulação Social do IJCPM Aracaju, Danielle Santana.
Antes do encontro no museu, os jovens participaram de um tour histórico pelas ruas de Aracaju, que começou no Largo da Gente Sergipana e terminou na comunidade Maloca, um quilombo urbano reconhecido no Brasil. Essa vivência foi precedida por oficinas de teatro, dança e fotografia, todas conectadas à cultura local. O percurso serviu para evidenciar como o território se configura como base da identidade e motor de transformação coletiva.
“Eu danço há 11 anos, mas nunca com esse traço cultural. Não conhecia nem os cantores da nossa trilha sonora. Descobri ritmos, passos e muitos artistas sergipanos durante as aulas. Esse aprendizado eu vou passar para minhas alunas. Vou plantar novas sementes”, revelou Luzia Nataly Santos, 19 anos, aluna da oficina de dança e professora de balé infantil.
O encontro também recebeu estudantes do Centro de Educação Básica Auxiliadora Paes Mendonça (CEBAPM), localizado em Ribeirópolis, no agreste sergipano. Foi a primeira vez que a estudante Maria Luísa Menezes, 14 anos, visitou o Largo da Gente Sergipana e pôde acompanhar as reflexões dos convidados. “Foi muito inspirador ouvir sobre a importância de conhecer as nossas raízes para nos conhecermos. Também tive contato com manifestações da cultura sergipana que não conhecia”, afirmou.
Esse distanciamento cultural está alinhado com o pensamento de que a cultura não é vista como um agente de mudança. Um estudo publicado em 2024 pela Friedrich Ebert Stiftung (FES) indicou que 88% dos jovens brasileiros acreditam que o futuro será melhor que o presente, mas apenas 6% colocam a cultura como prioridade nas políticas públicas, um percentual muito inferior ao de emprego (55%) e bem-estar social (46%).
Para a historiadora Carine Mangueira, o pertencimento ao território é fundamental. “Quando a gente conhece as nossas raízes, a gente se encontra. Ocupem os espaços, mas ocupem com presença. A memória é construída agora”, aconselhou.
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